A Parasita Azul, de Machado de Assis 

Fonte: 

ASSIS, Machado de. Histrias da meia-noite. So Paulo : LEL, [s.d.]. p. 176-246. (Coleo obras 
ilustradas de Machado de Assis, v.1). 

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Jacqueline Rizental Machado  Curitiba/PR 

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A PARASITA AZUL 

CAPTULO I 

VOLTA AO BRASIL 

H cerca de dezesseis anos, desembarcaram no Rio de Janeiro, vindo da Europa, o Sr. Camilo 
Seabra, goiano de nascimento, que ali fora estudar medicina e voltava agora com o diploma na 
algibeira e umas saudade no corao. Voltava de uma ausncia de oito anos, tendo visto e admirado 
as principais coisas que um homem pode ver e admirar por l, quando no lhe falta gosto nem 
meios. Ambas as coisas possua, e se tivesse tambm, no digo muito, mas um pouco mais de juzo, 
houvera gozado melhor do que gozou, e com justia poderia dizer que vivera. 

No abonava muito seus sentimentos patriticos o rosto com que entrou a barra da capital 
brasileira. Trazia-o fechado e merencrio, como que abafa em si alguma coisa que no  exatamente 
a bem-aventurana terrestre. Arrastou um olhar aborrecido pela cidade, que ia se desenrolando  
proporo que o navio se dirigia ao ancoradouro. Quando veio a hora de desembarcar, f-lo com a 
mesma alegria com que o ru transpe os umbrais do crcere. O escaler afastou-se do navio, em 
cujo mastro flutuava uma bandeira tricolor. Camilo murmurou consigo: 

 Adeus, Frana!
Depois envolveu-se num magnfico silncio e deixou-se levar para terra.
O espetculo da cidade, que ele no via h tanto tempo, sempre lhe prendeu um pouco a
ateno. No tinha porm dentro da alma o alvoroo de Ulisses ao ver a terra da sua ptria. Era 
antes pasmo e tdio. Comparava o que via agora com o que vira durante longos anos, e sentia mais 
e mais apertar-lhe o corao a dolorosa saudade que o mimava. Encaminhou-se para o primeiro 
hotel que lhe pareceu conveniente, e ali determinou passar alguns dias, antes de seguir para Gois. 
Jantou solitrio e triste, com a mente cheia de mil recordaes do mundo que acabava de deixar, e 
para dar ainda maior desafogo  memria, apenas acabado o jantar, estendeu-se num canap, e 
comeou a desfiar consigo mesmo um rosrio de cruis desventuras. 


Na opinio dele, nunca houvera mortal que mais dolorosamente experimentasse a hostilidade 
do destino. Nem no martirolgico cristo, nem nos trgicos gregos, nem no livro de J, havia sequer 
um plido esboo dos seus infortnios. 

Vejamos alguns traos patticos da existncia do nosso heri. 

Nascera rico, filho de um proprietrio de Gois, que nunca vira outra terra alm da provncia 
natal. Em 1828 estivera ali um naturalista francs, com quem o comendador Seabra travou relaes, 
e de quem se fez to amigo, que no quis outro padrinho para o seu nico filho, que ento contava 
um ano de idade. O naturalista, muito antes de o ser, cometera umas venialidades poticas que 
mereceram alguns elogios em 1810, mas que o tempo, -velho trapeiro da eternidade, -levou 
consigo para o infinito depsito das coisas inteis. Tudo lhe perdoava o ex-poeta, menos o 
esquecimento de um poema em que ele metrificara a vida de Frio Camilo, poema que ainda ento 
lia com sincero entusiasmo. Como lembrana desta obra da juventude, chamou ele ao afilhado 
Camilo, e com esse nome o batizou o padre Maciel, a grande aprazimento da famlia e seus amigos. 

 Compadre, disse o comendador ao naturalista, se este pequeno vingar, hei de mand-lo 
para sua terra, a aprender medicina ou qualquer outra coisa em que se faa homem. No caso de lhe 
achar jeito para andar com plantas e minerais, como o senhor, no se acanhe; d-lhe o destino que 
lhe parecer como se fra seu pai, que o , espiritualmente falando. 
 Quem sabe se eu viverei nesse tempo? disse o naturalista. 
 Oh! H de viver! Protestou Seabra. Esse corpo no engana; a sua tmpera  de ferro. No 
o vejo eu andar todos os dias por esse matos e campos, indiferente a sis e a chuvas, sem nunca ter 
a mais leve dor de cabea? Com metade dos seus trabalhos j eu estava defunto. H de viver e 
cuidar do meu rapaz, apenas ele tiver concludo c os seus primeiros estudos. 
A promessa de Seabra foi pontualmente cumprida. Camilo seguiu para Paris, logo depois de 
alguns preparatrios, e ali o padrinho cuidou dele como se realmente fra seu pai. O comendador 
no poupava dinheiro para que nada faltasse ao filho; a mesada que lhe mandava podia servir para 
duas ou trs pessoas em iguais circunstncias. Alm da mesada, recebia ele por ocasio da Pscoa e 
do Natal, amndoas e festas que a me lhe mandava, e que lhe chegavam s mos debaixo da forma 
de alguns excelentes mil francos. 

At aqui o nico ponto negro na existncia de Camilo, era o padrinho, que o trazia peado, 
com receio de que o rapaz viesse a perder-se nos precipcios da grande cidade. Quis, porm, a sai 
boa estrela que o ex-poeta de 1810 fosse repousar no nada ao lado das suas produes extintas, 
deixando na cincia alguns vestgios da sua passagem por ela. Camilo apressou-se ao escrever ao 
pai uma carta cheia de reflexes filosficas. 

O perodo final dizia assim: 

Em suma, meu pai, se lhe parece que eu tenho o necessrio juzo para concluir aqui os meus 
estudos, e se tem confiana na boa inspirao que me h de dar a alma daquele que l se foi deste 
vale de lgrimas para gozar a infinita bem-aventurana, deixe-me c ficar at que eu possa regressar 
ao meu pas, como um cidado esclarecido e apto para o servir, como  do meu dever. Caso a sua 
vontade seja contrria a isto que lhe peo, diga-o com franqueza, meu pai, porque ento no me 
demorarei um instante mais nesta terra, que j foi meia ptria para mim, e que hoje (hlas!) 
apenas uma terra de exlio. 

O bom velho no era homem que pudesse ver por entre as linhas desta lacrimosa epstola o 
verdadeiro sentimento que a ditara. Chorou de alegria ao ler as palavras do filho, mostrou a carta a 
todos os seus amigos, e apressou-se a responder ao rapaz que podia ficar em Paris todo o tempo 
necessrio para completar os seus estudos, e que, alm da mesada que lhe dava, nunca recusaria 
tudo quanto lhe fosse indispensvel em circunstncias imprevistas. Alm disso, aprovava de 
corao os sentimentos que ele manifestava em relao  sua ptria e  memria do padrinho. 
Transmitia-lhe muitas recomendaes do tio Jorge, do padre Maciel, do coronel Veiga, de todos os 
parentes e amigos, e conclua deitando-lhe a beno. 

A resposta paterna chegou s mos de Camilo no meio de um almoo, que ele dava no Caf 
de Madri a dois ou trs estrinas de primeira qualidade. Esperava aquilo mesmo, mas no resistiu ao 
desejo de beber  sade do pai, ato em que foi acompanhado pelos elegantes milhafres seus amigos. 


Nesse mesmo dia planeou Camilo algumas circunstncias imprevistas (para o comendador) e o 
prximo correio trouxe para o Brasil uma extensa carta em que ele agradecia as boas expresses do 
pai, dizia-lhe as suas saudades, confiava-lhe as suas esperanas, e pedia-lhe respeitosamente, em 
post-scriptum, a remessa de uma pequena quantia de dinheiro. 

Graas a estas facilidades atirou-se o nosso Camilo a uma vida solta e dispendiosa, no tanto, 
porm, que lhe sacrificasse os estudos. A inteligncia que possuia, e certo amor-prprio que no 
perdera, muito o ajudaram neste lance; concludo o curso, foi examinado, aprovado e doutorado. 

A notcia do acontecimento foi transmitida ao pai com o pedido de uma licena para ir ver 
outras terras da Europa. Obteve a licena, e saiu de Paris para visitar a Itlia, a Alemanha e a 
Inglaterra. No fim de alguns meses estava outra vez na grande capital, e a relatou o fio da sua 
antiga existncia, j livre ento dos cuidados estranhos e aborrecidos. A escala todas dos prazeres 
sensuais e frvolos foi percorrida por este esperanoso mancebo com uma sofreguido que parecia 
antes suicdio. Seus amigos eram numerosos, solcitos e constantes; alguns no duvidavam dar-lhe a 
honra de o constituir seu credor. Entre as moas de Corinto era o seu nome verdadeiramente 
popular; no poucas o tinham amado at o delrio. No havia pateada clebre em que a chave dos 
seus aposentos no figurasse, nem corrida, nem ceata, nem passeios em que no ocupasse um dos 
primeiros lugares cet aimable brsilien. 

Desejoso de o ver, escreveu-lhe o comendador pedindo que regressasse ao Brasil; mas o filho, 
parisiense at  medula dos ossos, no compreendia que um homem pudesse sair do crebro da 
Frana para vir internar-se em Gois. Respondeu com evasivas e deixou-se ficar. O velho fez vista 
grossa a esta primeira desobedincia. Tempos depois insistiu em cham-lo; novas evasivas da parte 
de Camilo. Irritou-se o pai e a terceira carta que lhe mandou foi j de amargas censuras. Camilo 
caiu em si e disps-se com grande mgoa a regressar  ptria, no sem esperanas de voltar a acabar 
os seus dias no Boulevard dos Italianos ou  porta do caf Helder. 

Um incidente, porm, demorou ainda desta vez o regresso do jovem mdico. Ele, que at ali 
vivera de amores fceis e paixes de uma hora, veio a enamorar-se repentinamente de uma linda 
princesa russa. No se assustem; a princesa russa de quem falo, afirmavam algumas pessoas que era 
filha da rua do Bac e trabalhara numa casa de modas, at  revoluo de 1848. No meio da 
revoluo apaixonou-se por um major polaco, que a levou para Varsvia, donde acaba de chegar 
transformada em princesa, com um nome acabado em ine ou em off, no sei bem. Vivia 
misteriosamente, zombando de todos os seus adoradores, exceto de Camilo, dizia ela, por quem 
sentia que era capaz de aposentar as suas roupas de viva. To depressa, porm, soltava estas 
expresses irrefletidas, como logo protestava com os olhos no cu. 

 Oh! no! Nunca, meu caro Alexis, nunca desonrarei a tua memria unindo-me a outro. 
Isto eram punhais que dilaceravam o corao de Camilo. O jovem mdico jurava por todos os 
santos do calendrio latino e grego que nunca amara a ningum como  formosa princesa. A brbara 
senhora parecia s vezes disposta a crer nos protestos de Camilo; outras vezes porm abanava a 
cabea e pedia perdo  sombra do venerado prncipe Alexis. Neste meio tempo chegou uma carta 
decisiva do comendador. O velho goiano intimava pela ltima vez ao filho que voltasse, sob pena 
de lhe suspender todos os recursos e trancar-lhe a porta. 

No era possvel tergiversar mais. Imaginou ainda uma grave molstia mas a idia de que o 
pai podia acreditar nela e suspender-lhe realmente os meios, aluiu de todo este projeto. Camilo sem 
nimo teve de ir confessar a sua posio  bela princesa; receava alm disso que ela, por um rasgo 
de generosidade, -natural em que se ama, -quisesse dividir com ele as suas terras de Novgorod. 
Aceit-las seria humilhao, recus-las poderia ser ofensa. Camilo preferiu sair de paris deixando  
princesa uma carta em que lhe contava singelamente os acontecimentos e prometia voltar algum 
dia. 

Tais eram as calamidades com que o destino quisera abater o nimo de Camilo. Todas elas 
repassou na memria o infeliz viajante, at que ouviu bater oito horas da noite. Saiu um pouco para 
tomar ar, e ainda mais se lhe acenderam as saudades de paris. Tudo lhe parecia lgubre, acanhado, 
mesquinho. Olhou cm desdm olmpico para todas as lojas da rua do Ouvidor, que lhe pareceu 
apenas um beco muito comprido e muito iluminado. Achava os homens deselegantes, as senhoras 


desgraciosas. Lembrou-se, porm, que Santa Luzia, sua cidade natal, era ainda menos parisiense 
que o Rio de Janeiro, e ento, abatido com esta importuna idias, correu para o hotel e deitou-se a 
dormir. 

No dia seguinte, logo depois de almoo, foi a casa do correspondente de seu pai. Declarou-lhe 
que tencionava seguir dentro de quatro ou cinco dias para Gois, e recebeu dele os necessrios 
recursos, segundo as ordens j dadas pelo comendador. O correspondente acrescentou que estava 
incumbido de lhe facilitar tudo o que quisesse no caso de desejar passar algumas semanas na corte. 

 No, respondeu Camilo; nada me prende  corte e estou ansioso por me ver a caminho. 
 Imagino as saudades que h de ter. H quantos anos? 
 Oito. 
 Oito! J  uma ausncia longa. 
Camilo ia-se dispondo a sair, quando viu entrar um sujeito alto, magro, com alguma barba em 
baixo do queixo e bigode, vestido com um palet de brim pardo e trazendo na cabea um chapu de 
Chile. O sujeito olhou para Camilo, estacou, recuou um passo, e depois de uma razovel hesitao, 
exclamou: 

 No me engano!  o Sr. Camilo! 
 Camilo Seabra, com efeito, respondeu o filho do comendador, lanando um olhar 
interrogativo ao dono da casa. 
 Este senhor, disse o correspondente,  o Sr. Soares, filho do negociante do mesmo nome, 
da cidade de Santa Luzia. 
 Qu!  o Leonardo que eu deixei apenas com um buo... 
 Em carne e osso interrompeu Soares;  o mesmo Leandro que lhe aparece agora todo 
barbado, como o senhor, que tambm est com bigodes bonitos! 
 Pois no o conhecia... 
 Conheci-o eu apenas o vi, apesar de o achar muito mudado do que era. Est agora um 
moo apurado. Eu  que estou velho. J c esto vinte e seis... No se ria: estou velho. Quando 
chegou? 
 Ontem. 
 E quando segue viagem para Gois? 
 Espero o primeiro vapor de Santos. 
 Nem de propsito! Iremos juntos. 
 Como est seu pai? Como vai toda aquela gente? O padre Maciel? O Veiga? D-me 
notcias de todos e de tudo. 
 Temos tempo para conversar  vontade. Por agora s lhe digo que todos vo bem. O 
vigrio  que esteve, dois meses doente de uma febre maligna e ningum pensava que arribasse; 
mas arribou. Deus nos livre que o homem adoea, agora que estamos com o Esprito Santo  porta. 
 Ainda fazem aquelas festas? 
 Pois ento! O imperador, este ano,  o coronel Veiga; e diz que quer fazer as coisas com 
todo o brilho. J prometeu que daria um baile. Mas ns temos tempo de conversar, ou aqui ou em 
caminho. Onde est morando? 
Camilo indicou o hotel em que se achava, e despediu-se do comprovinciano, satisfeito de 
haver encontrado um companheiro que de algum modo lhe diminusse os tdios de to longa 
viagem. Soares chegou  porta e acompanhou com os olhos o filho do comendador at perd-lo de 
vista. 

 Veja o senhor o que  andar por estas terras estrangeiras, disse ele ao correspondente, que 
tambm chegava  porta. Que mudana fez aquele rapaz, que era pouco mais ou menos como eu. 
CAPTULO II 

PARA GOIS 

Da a dias seguiam ambos para Santos, de l para So Paulo e tomavam a estrada de Gois. 


Soares,  medida que ia reavendo a antiga amizade com o filho do comendador, contava-lhe 
as memrias da sua vida, durante os oito anos de separao, e,  falta de coisa melhor, era isto o que 
entretinha o mdico nas ocasies e lugares em que a natureza lhe no oferecia algum espetculo dos 
seus. Ao cabo de umas quantas lguas de marcha estava Camilo informado das rixas eleitorais de 
Soares, das suas aventuras na caa, das suas proezas amorosas, e de muitas coisas mais, umas 
graves, outras fteis, que Soares narrava com igual entusiasmo e interesse. 

Camilo no era esprito observador; mas a alma de Soares andava-lhe to patente nas mos, 
que era impossvel deixar de a ver e examinar. No lhe pareceu mau rapaz, notou-lhe, porm, certa 
fanfarronice, em todo o gnero de coisas, na poltica, na caa, no jogo, e at nos amores. Neste 
ltimo captulo havia um pargrafo srio; era o que dizia respeito a uma moa, que ele amava 
loucamente, de tal modo que prometia aniquilar a quem quer que ousasse levantar olhos para ela. 

  o que lhe digo, Camilo, confessava o filho do comerciante, se algum tiver o 
atrevimento de pretender essa moa pode contar que h no mundo mais dois desgraados, ele e eu. 
No h de acontecer assim felizmente l todos me conhecem; sabem que no cochilo para executar 
o que prometo. H poucos meses o major Valente perdeu a eleio s porque teve o atrevimento de 
dizer que ia arranjar a demisso do juiz municipal. No arranjou a demisso, e por castigo tomou 
taboca; saiu na lista dos suplentes. Quem lhe deu o golpe fui eu. A coisa foi... 
 Mas por que no se casa com essa moa? perguntou Camilo, desviando cautelosamente a 
narrao da ltima vitria eleitoral de Soares. 
 No me caso porque... tem muita curiosidade de o saber? 
 Curiosidade... de amigo e nada mais. 
 No me caso porque ela no quer.
Camilo estacou o cavalo.
 No quer? disse ele espantado. Ento por que motivo pretende impedir que ela... 
 Isso  uma histria muito comprida. A Isabel... 
 Isabel?... interrompeu Camilo. Ora, espere, ser a filha do Dr. Matos, que foi juiz de 
direito h dez anos? 
 Essa mesma. 
 Deve estar uma moa? 
 Tem seus vinte anos bem contados. 
 Lembra-me que era bonitinha aos doze 
 Oh! mudou muito... para melhor! Ningum a v que no fique logo com a cabea voltada. 
Tem rejeitado j uns poucos de casamentos. O ltimo noivo recusado fui eu. A causa por que se me 
recusou foi ela mesma que me veio dizer. 
 E que causa era? 
 Olha, Sr. Soares, disse-me ela. O senhor merece bem que uma moa o aceite por marido; 
eu era capaz disso, mas no o fao porque nunca seramos felizes. 
 Que mais? 
 Mais nada. Respondeu-me apenas isto que lhe acabo de contar. 
 Nunca mais se falaram? 
 Pelo contrrio, falamo-nos muitas vezes. No mudou comigo; trata-me como dantes. A 
no serem aquelas palavras que ela me disse, e que ainda me doem c dentro, eu podia ter 
esperanas. Vejo, porm, que seriam inteis; ela no gosta de mim. 
 Quer que lhe diga uma coisa com franqueza? 
 Diga. 
 Parece-me um grande egosta. 
 Pode ser; mas sou assim. Tenho cimes de tudo, at do ar que ela respira. Eu, se a visse 
gostar de outro, e no pudesse impedir o casamento, mudava de terra. O que me vale  a convico 
que tenho de que ela no h de gostar nunca de outro, e assim pensam todos os mais. 
 No admira que no saiba amar, reflexionou Camilo, pondo os olhos no horizonte como 
se estivesse ali a imagem da formosa sdita do czar. Nem todas receberam do cu esse dom, que  o 
verdadeiro distintivo dos espritos seletos. Algumas h, porm que sabem dar a vida e a alma a um 

ente querido, que lhe enchem o corao de profundos afetos, e deste modo fazem jus a uma 
perptua adorao. So raras, bem sei, as mulheres desta casta; mas existem... 

Camilo terminou esta homenagem  dama dos seus pensamentos abrindo as asas a um suspiro 
que se no chegou ao seu destino, no foi por culpa do autor. O companheiro no compreendeu a 
inteno do discurso, insistiu em dizer que a formosa goiana estava longe de gostar de ningum, e 
ele ainda mais longe de lho consentir. 

O assunto agradava aos dois comprovincianos; falaram dele longamente at o aproximar da 
tarde. Pouco depois chegaram a um pouso, onde deviam pernoitar. 

Tirada a carga dos animais, cuidaram os criados primeiramente do caf, e, depois do jantar. 
Nessas ocasies ainda mais pungiram ao nosso heri as saudades de Paris. Que diferena entre os 
seus jantares dos restaurants dos boulevards e aquela refeio ligeira e tosca, num miservel 
pouso de estrada, sem os acepipes da cozinha francesa, sem a leitura do Fgaro ou da Gazette des 
Tribunaux! 

Camilo suspirava consigo mesmo; tornava-se ento ainda menos comunicativo. No se perdia 
nada porque o seu companheiro falava por dois. 

Acabada a refeio, acendeu Camilo um charuto e Soares um cigarro de palha. Era j noite. A 
fogueira do jantar alumiava um pequeno espao em roda; mas nem era precisa, porque a lua 
comeava a surgir de trs de um morro, plida e luminosa, brincando nas folhas do arvoredo e nas 
guas tranqilas do rio que serpeava ali ao p. 

Um dos tropeiros sacou a viola e comeou a gargantear uma cantiga, que a qualquer outro 
encantaria pela rude singeleza dos versos e da toada, mas que ao filho do comendador apenas fez 
lembrar com tristeza as volatas da pera. Lembrou-lhe mais; lembrou-lhe uma noite em que a bel 
amoscovita, molemente sentada num camarote dos Italianos, deixava de ouvir as ternuras do tenor, 
para contempl-lo de longe, cheirando um raminho de violetas. 

Soares atirou  rede e adormeceu. 

O tropeiro cessou de cantar, e dentro de pouco tempo tudo era silncio no pouso. 

Camilo ficou sozinho diante da noite, que estava realmente formosa e solene. No faltava ao 
jovem goiano a inteligncia do belo; e a quase novidade daquele espetculo, que uma longa 
ausncia lhe fizera esquecer, no deixava de o impressionar imensamente. 

De quando em quando chegavam aos seus ouvidos urros longnquos, de alguma fera que 
vagueava na solido. Outras vezes eram aves noturnas, que soltavam ao perto os seus pios 
tristonhos. Os grilos, e tambm as rs e os sapos formavam o coro daquela pera do serto, que o 
nosso heri admirava decerto, mas  qual preferia indubitavelmente a pera cmica. 

Assim esteve longo tempo, cerca de duas horas, deixando vagar o seu esprito ao sabor das 
saudades, e levantando e desfazendo mil castelos no ar. De repente foi chamado a si pela voz de 
Soares, que parecia vtima de um pesadelo. Afiou o ouvido e escutou estas palavras soltas e 
abafadas que o seu companheiro murmurava: 

 Isabel... querida Isabel... Que  isso?... Ah! meu Deus! Acudam! 
As ltimas slabas eram j mais aflitas que as primeiras. Camilo correu ao companheiro e 
fortemente o sacudiu. Soares acordou espantado, sentou-se, olhou em roda de si e murmurou: 

 Que ? 
 Um pesadelo. 
 Sim, foi um pesadelo. Ainda bem! Que horas so? 
 Ainda  noite. 
 J est levantado? 
 Agora  que me vou deitar. Durmamos que  tempo. 
 Amanh lhe contarei o sonho. 
No dia seguinte, efetivamente, logo depois das primeiras vinte braas de marcha, referiu 
Soares o terrvel sonho de vspera. 

 Estava eu ao p de um rio, disse ele, com a espingarda na mo, espiando as capivaras. 
Olho casualmente para a ribanceira que ficava muito acima, do lado oposto, e vejo uma moa 
montada num cavalo preto, e com os cabelos, que tambm eram pretos, cados sobre os ombros... 

 Era tudo uma escurido, interrompeu Camilo. 
 Espere; admirei-me de ver ali, e por aquele modo, uma moa que me parecia franzina e 
delicada. Quem pensava o senhor que era? 
 A Isabel. 
 A Isabel. Corri pela margem adiante, trepei acima de uma pedra fronteira ao lugar onde 
ela estava, e perguntei-lhe o que fazia ali. Ela esteve algum tempo calada. Depois, apontando para o 
fundo do groto disse: 
 O meu chapu caiu l embaixo. 
 Ah! 
 O senhor ama-me? disse ela passados alguns minutos. 
 Mais que a vida. 
 Far o que eu lhe pedir? 
 Tudo. 
 Bem, v buscar o meu chapu. 
Olhei para baixo. Era um imenso groto em cujo fundo fervia e roncava uma gua barrenta e 
grossa. O chapu, em vez de ir com a corrente por ali abaixo at perder-se de todo, ficara espetado 
na ponta de uma rocha, e l do fundo parecia convidar-me a descer. Mas era impossvel. Olhei para 
todos os lados, a ver se achava algum recurso. Nenhum havia... 

 Veja o que  a imaginao escaldada! observou Camilo. 
 J eu procurava algumas palavras com que dissuadisse Isabel da terrvel idias, quando 
senti pousar-me uma mo no ombro. Voltei-me; era um homem; era o senhor. 
 Eu? 
  verdade. O senhor olhou para mim com um ar de desprezo, sorriu para ela e depois 
olhou para o abismo. Repentinamente, sem que eu possa dizer como, estava o senhor em baixo e 
estendia a mo para tirar o chapelinho fatal. 
 Ah! 
 A gua, porm, engrossando subitamente, ameaava submergi-lo. Ento Isabel, soltando 
um grito de angstia, esporeou o cavalo e atirou-se pela ribanceira abaixo. Gritei... chamei por 
socorro; 
 Tudo foi intil. J a gua os enrolava em suas dobras... quando fui acordado pelo senhor. 
Leandro Soares concluiu esta narrao do seu pesadelo, parecendo ainda assustado do que lhe 
acontecer... imaginariamente. Convm dizer que ele acreditava nos sonhos. 

 Veja o que  uma digesto mal feita! exclamou Camilo quando o comprovinciano 
terminou a narrao. Que poro de tolices! O chapu, a ribanceira, o cavalo, e mais que tudo a 
minha presena nesse melodrama fantstico, tudo isso  obra de quem digeriu mal o jantar. Em 
Paris h teatros que representam pesadelos assim, -piores do que o seu porque so mais compridos. 
Mas o que vejo tambm  que essa moa no o deixa nem dormindo. 
 Nem dormindo! 
Soares disse estas duas palavras quase como um eco, sem conscincia. Desde que conclura a 
narrao, e logo depois das primeiras palavras de Camilo, entrara a fazer consigo uma srie de 
reflexes que no chegaram ao conhecimento do autor desta narrativa. O mais que lhes posso dizer 
 que no eram alegres, porque a fonte lhe descaiu, enrugou-se-lhe a testa, e ele, cravando os olhos 
nas orelhas do animal, recolheu-se a um inviolvel silncio. 

A viagem, daquele dia em diante, foi menos suportvel para Camilo de que at ali. Alm de 
uma leve melancolia que se apoderara do companheiro, ia-se-lhe tornando enfadonho aquele andar 
lguas e lguas que pareciam no acabar mais. Afinal voltou Soares  sua habitual verbosidade, mas 
j ento nada podia vencer o tdio mortal que se apoderara do msero Camilo. 

Quando porm avistou a cidade, perto da qual estava a fazenda, onde vivera as primeiras 
auroras da sua mocidade, Camilo sentiu abalar-se-lhe fortemente o corao. Um sentimento srio o 
dominava. Por algum tempo, ao menos, Paris com seus esplendores cedia o lugar  pequena e 
honesta ptria dos Seabras. 


CAPTULO III 

O ENCONTRO 

Foi um verdadeiro dia de festa aquele em que o comendador cingiu ao peito o filho que oito 
anos antes mandara a terras estranhas. No pode reter as lgrimas o bom velho, -no pode, que elas 
vinham de um corao ainda vioso de afetos e exuberante de ternura. No menos intensa e sincera 
foi a alegria de Camilo. 

Beijou repetidamente as mos e a fronte do pai, abraou os parentes, os amigos de outro 
tempo, e durante alguns dias, -no muitos, -parecia completamente curado dos seus desejos de 
regressar  Europa. 

Na cidade e seus arredores no se falava em outra coisa. O assunto, no principal mas 
exclusivo das palestras e comentrios era o filho do comendador. Ningum se fartava de o elogiar. 
Admiravam-lhe as maneiras e a elegncia. A mesma superioridade com que ele falava a todos, 
achava entusiastas sinceros. Durante muitos dias foi totalmente impossvel que o rapaz pensasse em 
outra coisa que no fosse contar as suas viagens aos amveis conterrneos. Mas pagavam-lhe a 
maada, porque a menor coisa que ele dissesse tinha aos olhos dos outros uma graa indefinvel. O 
padre Maciel, que o batizara vinte e seis anos antes, e que o via j homem completo era o primeiro 
pregoeiro da sua transformao. 

 Pode gabar-se, Sr. comendador, dizia ele ao pai de Camilo, pode gabar-se de que o cu 
lhe deu um rapaz de truz! Santa Luzia vai ter um mdico de primeira ordem, se me no engana o 
afeto que tenho a esse que era ainda ontem um pirralho. E no s mdico, mas at bom filsofo;  
verdade, parece-me bom filsofo. Sondei-o ontem nesse particular, e no lhe achei ponto fraco ou 
duvidoso. 
O tio Jorge andava a perguntar a todos o que pensavam do sobrinho Camilo. O tenentecoronel Veiga agradecia  providncia  chegada do Dr. Camilo nas proximidades do Esprito 
Santo. 

 Sem ele, o meu baile seria incompleto. 
O Dr. Matos no foi o ltimo que visitou o filho do comendador. Era um velho alto e bem 
feito, ainda que um tanto quebrado pelos anos. 

 Venha, doutor, disse o velho Seabra apenas o viu assomar  porta; venha ver o meu 
homem. 
 Homem, com efeito, respondeu Matos contemplando o rapaz. Est mais homem do que 
eu supunha. Tambm j l vo oito anos! Venha de l esse abrao! 
O moo abriu os braos ao velho. Depois, como era costume fazer a quantos o iam ver, 
contou-lhe alguma coisa das suas viagens e estudos.  perfeitamente intil dizer que o nosso heri 
omitiu sempre tudo quanto pudesse abalar o bom conceito em que estava no nimo de todos. A darlhe crdito, vivera quase como um anacoreta; e ningum ousava pensar ao contrrio. 

Tudo eram pois alegrias na boa cidade e seus arredores; e o jovem mdico, lisonjeado com a 
inesperada recepo que teve, continuou a no pensar muito em Paris. Mas o tempo corre e as 
nossas sensaes com ele se modificam. No fim de quinze dias tinha Camilo esgotado a novidade 
das suas impresses; a fazenda comeou a mudar de aspecto; os campos ficaram montonos, as 
rvores montonas, os rios montonos, a cidade montona, ele prprio montono. Invadiu-o ento 
uma coisa a que podemos chamar  nostalgia do exlio. 

 No, dizia ele consigo, no posso ficar aqui mais trs meses. Paris ou o cemitrio, tal  o 
dilema que se me oferece. Daqui a trs meses, estarei morto ou em caminho da Europa. 
O aborrecimento de Camilo no escapou aos olhos do pai, que quase vivia a olhar para ele. 

 Tem razo, pensava o comendador, Quem viveu por essas terras que dizem ser to 
bonitas e animadas, no pode estar aqui muito alegre.  preciso dar-lhe alguma ocupao... a 
poltica, por exemplo. 
 Poltica! exclamou Camilo, quando o pai lhe falou nesse assunto. De que me serve a 
poltica, meu pai? 

 De muito. Sers primeiro deputado provincial; podes ir depois para a cmara no Rio de 
Janeiro. Um dia interpelas o ministrio e se ele cair, podes subir ao governo. Nunca tiveste ambio 
de ser ministro? 
 Nunca. 
  pena! 
 Por que? 
 Porque  bom ser ministro. 
 Governar os homens, no ? disse Camilo rindo;  um sexo ingovernvel; prefiro o outro.
Seabra riu-se do repente, mas no perdeu a esperana de convencer o herdeiro.
Havia j vinte dias que o mdico estava em casa do pai, quando se lembrou da histria que lhe
contara Soares e do sonho que ele tivera no pouso. A primeira vez que foi  cidade e esteve com o 
filho do negociante, perguntou-lhe: 

 Diga-me como vai a sua Isabel, que ainda a no vi?
Soares olhou para ele com sobrolho carregado e levantou os ombros resmungando um seco:
 No sei.
Camilo no insistiu.
 A molstia ainda est no perodo agudo, disse ele consigo. 
Teve porm curiosidade de ver a formosa Isabelinha, que to por terra deitara aquele verboso 
cabo eleitoral. A todas as moas da localidade, em dez lguas em redor, havia j falado o jovem 
mdico. Isabel era a nica esquiva at ento. Esquiva no digo bem. Camilo fra uma vez  fazenda 
do Dr. Matos; mas a filha estava doente. Pelo menos foi isso o que lhe disseram. 

 Descanse, dizia-lhe um vizinho a quem ele mostrara impacincia de conhecer a amada de 
Leandro Soares; h de v-la no baile do coronel veiga, ou na festa do Esprito Santo, ou em outra 
qualquer ocasio. 
A beleza da moa, que ele no julgava pudesse ser superior, nem sequer igual,  da viva do 
prncipe Alexis, a paixo incurvel de Soares e o tal ou qual mistrio com que se falava de Isabel, 
tudo isso excitou ao ltimo ponto a curiosidade do filho do comendador. 

No domingo prximo, oito dias antes do Esprito Santo, saiu Camilo da fazenda para ir  
missa na igreja da cidade, como j fizera nos domingos anteriores. O cavalo ia a passo lento, a 
compasso com o pensamento do cavaleiro, que se espreguiava pelo campo fora em busca das 
sensaes que j no tinha e que ansiava ter de novo. 

Mil singulares idias atravessavam o crebro de Camilo. Ora, almejava alar-se com cavalo e 
tudo, os ares e ir cair defronte do Palais-Royal, ou em outro qualquer ponto da capital do mundo. 
Logo depois fazia a si mesmo a descrio de um cataclismo tal, que ele viesse a achar-se almoando 
no Caf Tortoni, dois minutos depois de chegar ao altar o padre Maciel. 

De repente, ao quebrar uma volta da estrada, descobriu ao longe duas senhoras a cavalo 
acompanhadas por um pajem. Picou de esporas e dentro de pouco tempo estava junto dos trs 
cavaleiros. Uma das senhoras voltou a cabea, sorriu e parou. Camilo aproximou-se, com a cabea 
descoberta, e estendeu-lhe a mo, que ela apertou. 

A senhora a quem cumprimentara era a esposa do tenente-coronel Veiga. Representava ter 
quarenta e cinco anos, mas estava assaz conservada. A outra senhora, sentindo o movimento da 
companheira, fez parar tambm o cavalo e voltou igualmente a cabea. Camilo no olhava ento 
para ela. Estava ocupado em ouvir D. Gertrudes, que lhe dava notcias do tenente-coronel. 

 Agora s pensa na festa, dizia ela; j deve estar na igreja. Vai  missa, no? 
 Vou. 
 Vamos juntos. 
Trocadas estas palavras, que foram rpidas, Camilo procurou com os olhos a outra cavaleira. 
Ela porm ia j alguns passos adiante. O mdico colocou-se ao lado de D. Gertrudes, e a comitiva 
continuou a andar. Iam assim conversando havia j uns dez minutos, quando o cavalo da senhora 
que ia adiante estacou. 

 Que , Isabel? perguntou D. Gertrudes. 

 Isabel! exclamou Camilo, sem dar ateno ao incidente que provocara a pergunta da 
esposa do coronel. 
A moa voltou a cabea e levantou os ombros respondendo secamente: 

 No sei. 
A causa era um rumor que o cavalo sentira por trs de uma espessa moita de taquaras que 
ficava  esquerda do caminho. Antes porm que o pajem ou Camilo fosse examinar a causa da 
relutncia do animal, a moa fez um esforo supremo, e chicoteando vigorosamente o cavalo, 
conseguiu que este vencesse o terror, e deitasse a correr a galope adiante dos companheiros. 

 Isabel! disse Camilo a D. Gertrudes. Aquela moa ser a filha do Dr. Matos? 
  verdade. No a conhecia? 
 H oito anos que a no vejo. Est uma flor! J me no admira que se fale aqui tanto na 
sua beleza. Disseram-me que estava doente... 
 Esteve; mas as suas doenas so coisas de pequena monta. So nervos; assim se diz, creio 
eu, quando se no sabe do que uma pessoa padece... 
Isabel parara ao longe, e voltada para a esquerda da estrada, parecia admirar o espetculo da 
natureza. Da a alguns minutos estavam perto dela os seus companheiros. A moa ia prosseguir a 
marcha, quando D. Gertrudes lhe disse: 

 Isabel!
A moa voltou o rosto. D. Gertrudes aproximou-se dela.
 No te lembras do Dr. Camilo Seabra? 
 Talvez no se lembre, disse Camilo. Tinha doze anos quando eu sa daqui, e j l so 
oito! 
 Lembro-me, respondeu Isabel curvando levemente a cabea, mas sem olhar para o 
mdico. 
E chicoteando de mansinho o cavalo, seguiu para diante. Por mais singular que fosse aquela 
maneira de reatar conhecimento antigo, o que mais impressionou ento o filho do comendador foi a 
beleza de Isabel, que lhe pareceu estar na altura da reputao. 

Tanto quanto se podia julgar  primeira vista, a esbelta cavaleira deveria ser mais alta que 
baixa. Era morena, -mas de um moreno acetinado e macio, com uns delicadssimos longes cor-derosa, -o que seria efeito da agitao, visto que afirmavam ser extremamente plida. Os olhos, -no 
lhes pode Camilo ver a cor, mas sentiu-lhes a luz que valia mais talvez, apesar de o no terem 
fitado, e compreendeu logo que com olhos tais a formosa goiana houvesse fascinado o msero 
Soares. 

No averiguou, nem pode, as restantes feies da moa; mas o que pode contemplar  
vontade, o que j vinha admirando de longe, era a elegncia nativa do busto e o gracioso desgarro 
com que ela montava. Vira muitas amazonas elegantes e destras. Aquela porm tinha alguma coisa 
em que se avantajava s outras; era talvez o desalinho do gesto, talvez a espontaneidade dos 
movimento, outra coisa talvez, ou todas essas juntas que davam  interessante goiana incontestvel 
supremacia. 

Isabel parava de quando em quando o cavalo e dirigia a palavra  esposa do coronel, a 
respeito de qualquer acidente, -de um efeito de luz, de um pssaro que passava, de um som que se 
ouvia, -mas em nenhuma ocasio encarava ou sequer olhava de esguelha o filho do comendador. 
Absorvido na contemplao da moa, Camilo deixou cair na conversa, e havia j alguns minutos 
que ele e D. Gertrudes iam cavalgando, sem dizer uma palavra, ao lado um do outro. Foram 
interrompidos em sua marcha silenciosa por um cavaleiro, que vinha atrs da comitiva a trote largo. 

Era Soares. 

O filho do negociante vinha bem diferente do que at ali andava. Cumprimentou-os sorrindo 
jovial como estivera nos primeiros dias de viagem do mdico. No era porm difcil conhecer que a 
alegra de Soares era um artifcio. O pobre namorado fechava o rosto de quando em quando, ou fazia 
um gesto de desespero que felizmente escapava aos outros. Ele receava o triunfo de um homem que 
fsica e intelectualmente lhe era superior; que, alm disso, gozava naquela ocasio a grande 
vantagem de dominar a ateno pblica, que era o uso da aldeia, o acontecimento do dia, o homem 


da situao. Tudo conspirava para derrubar a ltima esperana de Soares, que era a esperana de ver 
morrer a moa isenta de todo o vnculo conjugal. O infeliz namorado tinha o sestro, alis comum, 
de querer ver quebrada ou intil a taa que ele no podia levar aos lbios. 

Cresceu porm seu receio quando, estando escondido no taquaral de que falei acima, para ver 
passar Isabel, como costumava fazer muitas vezes, descobriu a pessoa de Camilo na comitiva. No 
pode reter uma exclamao de surpresa, e chegou a dar um passo na direo da estrada. Deteve-se a 
tempo. Os cavaleiros, como vimos, passaram adiante, deixando o cioso pretendente a jurar aos cus 
e  terra que tomaria desforra do seu atrevido rival, se o fosse. 

No era rival, bem sabemos; o corao de Camilo guardava ainda fresca a memria de 
Artemisa moscovita, cujas lgrimas, apesar da distncia, o rapaz sentia que eram ardentes e 
aflitivas. Mas quem poderia convencer a Leandro Soares que o elegante moo da Europa, como 
lhe chamavam no ficaria enamorado da esquiva goiana? 

Isabel, entretanto, apenas viu o infeliz pretendente, deteve o cavalo e estendeu-lhe 
afetuosamente a mo. Um adorvel sorriso acompanhou este movimento. No era bastante para 
dissipar as dvidas do pobre moo. Diversa, foi porm a impresso de Camilo. 

 Ama-o, ou  uma grande velhaca, pensou ele. 
Casualmente, -e pela primeira vez, -olhava Isabel para o filho do comendador. Perspiccia 
ou adivinhao, leu-lhe no rosto esse pensamento oculto; franziu levemente a testa com uma 
expresso to viva de estranheza, que o mdico ficou perplexo e no pode deixar de acrescentar, j 
ento com os lbios,  meia voz, falando para si: 

 Ou fala com o diabo. 
 Talvez, murmurou a moa com os olhos fitos no cho. 
Isto foi dito assim, sem que os outros dois percebessem. Camilo no podia desviar os olhos da 
formosa Isabel, meio espantado, meio curioso, depois da palavra murmurada por ela em to 
singulares condies. Soares olhava para Camilo com a mesma ternura, com que um gavio espreita 
uma pomba. Isabel brincava com o chicotinho. D. Gertrudes, que temia perder a missa do padre 
Maciel e receber um reparo amigvel do marido, deu voz de marcha, e a comitiva seguiu 
imediatamente. 

CAPTULO IV 

A FESTA 

No sbado seguinte a cidade revestira desusado aspecto. De toda a parte correra uma chusma 
de povo que ia assistir  festa anual do Esprito Santo. 

Vo rareando os lugares em que de todo se no apagou o gosto dessas festas clssicas, resto 
de outras eras, que os escritores do sculo futuro ho de estudar com curiosidade, para pintar aos 
seus conterrneos um Brasil que eles j no ho de conhecer. No tempo em que esta histria se 
passa uma das mais genunas festas do esprito Santo era a da cidade de Santa Luzia. 

O tenente-coronel Veiga, que era ento o imperador do divino, estava em uma casa que 
possua na cidade. Na noite de sbado foi ali ter o bando dos pastores, composto de homens e 
mulheres com o seu pitoresco vesturio, e acompanhado pelo clssico velho, que era um sujeito de 
calo e meia, sapato raso, casaca esguia, colete comprido e grande bengala na mo. 

Camilo estava em casa do coronel, quando ali apareceu o bando dos pastores, com alguns 
msicos  frente, e muita gente atrs. Formaram logo, ali mesmo na rua, um crculo; um pastor e 
uma pastora iniciaram a dana clssica. Danaram, cantaram e tocaram todos,  porta e na sala do 
coronel que estava literalmente a lamber-se de gosto.  ponto duvidoso, e provavelmente nunca ser 
liquidado, se o tenente-coronel Veiga preferia naquela ocasio ser ministro de Estado a ser 
imperador do Esprito Santo. 

E todavia aquilo era apenas uma mostra da grandeza do tenente-coronel. O sol de domingo 
devia alumiar maiores coisas. Parece que esta razo determinou o rei da luz a trazer nesse dia os 
seus melhores raios. O cu nunca se mostrara mais limpidamente azul. 


Algumas nuvens grossas, durante a noite, chegaram a emurchecer as esperanas dos festeiros; 
felizmente sobre a madrugada soprara um vento rijo que varreu o cu e purificou a atmosfera. 

A populao correspondeu  solicitude da natureza. Logo cedo apareceu ela com os seus 
vestidos domingueiros, -jovial, risonha, palreira, -nada menos que feliz. 

O ar atroava com foguetes; os sinos convidavam alegremente o povo  cerimnia religiosa. 

Camilo passara a noite na cidade em casa do padre Maciel, e foi acordado, mais cedo do que 
supusera, com os repiques e foguetada e mais demonstraes da cidade alegre. Em casa do pai 
continuara o moo seus hbitos de Paris, em que o comendador julgou no dever perturb-lo. 
Acordava, portanto s 11 horas da manh, exceto aos domingos, em que ia  missa, para de todo em 
todo no ofender os hbitos da terra. 

 Que diabo  isto padre? gritou Camilo do quarto onde estava e no momento em que uma 
girndola lhe abria definitivamente os olhos. 
 Que h de ser? respondeu o padre Maciel, metendo a cabea pela porta:  a festa. 
Camilo no pode conciliar o sono, e viu-se obrigado a levantar-se. Almoou com o padre, 
contou duas anedotas, confessou ao hspede que Paris era o ideal das cidades, e saiu para ir ter  
casa do imperador do divino. O padre saiu com ele. Em caminho viram de longe Leandro Soares. 

 No me dir, padre, perguntou Camilo, por que razo a filha do Dr. Matos no atende 
quele pobre rapaz que gosta tanto dela? 
Maciel concertou os culos e exps a seguinte reflexo: 

 Voc parece tolo. 
 No tanto, como lhe pareo, replicou o filho do comendador, porque mais de uma pessoa 
tem feito a mesma pergunta. 
 Assim , na verdade, disse o padre; mas h coisas que outros dizem e a gente no repete. 
A Isabelinha no gosta do Soares simplesmente porque no gosta. 
 No lhe parece que essa moa  um tanto esquisita? 
 No, disse o padre, parece-me uma grande finria. 
 Ah! por qu? 
 Suspeito que tem muita ambio; no aceita o amor de Soares, a ver se pilha algum 
casamento que lhe abra a porta das grandezas polticas. 
 Ora, disse Camilo, levantando os ombros. 
 No acredita? 
 No. 
 Pode ser que me engane; mas creio que  isto mesmo. Aqui cada qual d uma explicao 
 iseno de Isabel; todas as explicaes me parecem absurdas; a minha  a melhor. 
Camilo fez algumas objees  explicao do padre, e despediu-se dele para ir a casa do 
tenente-coronel. 
O festivo imperador estava literalmente fora de si. Era a primeira vez que exercia cargo 
honorfico e timbrava em faz-lo brilhantemente, e at melhor que os seus predecessores. Ao 
natural desejo de ficar por baixo, acrescia o elemento da inveja poltica. Alguns adversrios seus 
diziam pela boca pequena que o brioso coronel no era capaz de dar conta da mo. 

 Pois vero se sou capaz, foi o que ele disse ao ouvir de alguns amigos a malcia dos 
adversrios. 
Quando Camilo entrou na sala, acabava o tenente-coronel de explicar umas ordens relativas 
ao jantar que se devia seguir  festa, e ouvia algumas informaes que lhe dava um irmo definidor 
acerca de uma cerimnia da sacristia. 

 No ouso falar-lhe, coronel, disse o filho do comendador, quando o Veiga ficou s com 
ele; no ouso interromp-lo. 
 No interrompe, acudiu o imperador do divino; agora deve tudo ser acabado. O 
comendador vem? 
 J c deve estar. 
 J viu a igreja? 
 Ainda no. 

 Est muito bonita. No  por me gabar; creio que a festa no desmerecer das outras, e 
at em algumas coisas h de ir melhor. 
Era absolutamente impossvel no concordar com esta opinio, quando aquele que a exprimia 
fazia assim o seu prprio louvor. Camilo encareceu ainda mais o mrito da festa. O coronel ouvia-o 
com um riso de satisfao ntima, e dispunha-se a provar que o seu jovem amigo ainda no 
apreciava bem a situao, quando este desviou a conversa, perguntando: 

 Ainda no veio o Dr. Matos? 
 J. 
 Com a famlia? 
 Sim, com a famlia. 
Neste momento foram interrompidos pelo som de muitos foguetes e de uma msica que se 
aproximava. 

 So eles! disse Veiga: vm buscar-me. H de dar-me licena. 
O coronel estava at ento de cala preta e rodaque de brim. Correu a preparar-se com o traje 
e as insgnias do seu elevado cargo. Camilo chegou  janela para ver o cortejo. No tardou que este 
aparecesse composto de uma banda de msica da irmandade do Esprito Santo e dos pastores da 
vspera. Os irmos vestiam as suas opas encarnadas, e vinham a passo grave, cercados do povo, que 
enchia a rua e se aglomerava  porta do tenente-coronel para v-lo sair. 

Quando o cortejo parou em frente a casa do tenente-coronel cessou a msica de tocar e todos 
os olhos se voltaram curiosamente para as janelas. Mas o imperador estreante estava ainda por 
completar a sua edio, e os curiosos tiveram de contentar-se com a pessoa do Dr. Camilo. 
Entretanto quatro ou seis irmos mais graduados destacaram-se do grupo e subiram as escadas do 
tenente-coronel. 

Minutos depois cumprimentava Camilo os ditos irmos graduados, um dos quais, mais 
graduado que os outros, no o era s no cargo, mas tambm, e sobretudo, no tamanho. E a estatura 
do major Brs seria a coisa mais notvel da sua pessoa, se lhe no pedisse meas a magreza do 
prprio major. A opa do maior, apesar disto, ficava-lhe bem, porque nem ia at abaixo da curva da 
perna como a dos outros, nem lhe ficava na cintura, como devera, no caso de ter sido feita pela 
mesma medida. Era uma opa termo-mdia. Ficava-lhe entre a cintura e a curva, e foi feita assim de 
propsito para conciliar os princpios da elegncia com a estatura do major. 

Todos os irmos graduados estenderam a mo ao filho do comendador e perguntaram 
ansiosamente pelo tenente-coronel. 

 No tarda; foi vestir-se, respondeu Camilo. 
 A igreja est cheia, disse um dos irmos graduados; s se espera por ele. 
  justo esperar, opinou o major Brs. 
 Apoiado, disse o coro dos irmos. 
 Demais, continuou o imenso oficial, temos tempo; e no vamos para longe. 
Os outros irmos apoiaram com o gesto esta opinio do major, que, ato contnuo comeou a 
dizer a Camilo os mil trabalhos que a festa lhe dera, a ele e aos cavaleiros que o acompanharam 
naquela ocasio, no menos que ao tenente-coronel. 

 Como recompensa dos nossos dbeis esforos (Camilo fez um sinal negativo a estas 
palavras do major Brs), temos conscincia de que a coisa no sara de todo mal. 
Ainda estas palavras no tinham bem sado dos lbios do digno oficial, quando assomou  
porta da sala o tenente-coronel em todo o esplendor da sua transformao. 
Camilo perdera de todo as noes que tinha a respeito do traje e insgnias de um imperador do 
Esprito Santo. No foi pois sem grande pasmo que viu assomar  porta da sala a figura do tenentecoronel. 

Alm da cala preta, que j tinha no corpo quando ali chegou Camilo, o tenente-coronel 
envergara uma casaca, que pela regularidade e elegncia do corte podia rivalizar com as dos mais 
apurados membros do cassino Fluminense. At a tudo bem. Ao peito rutilava uma vasta comenda 
da Ordem da Rosa, que lhe no ficava mal. Mas o que excedeu a toda a expectao, o que pintou no 


rosto do nosso Camilo a mais completa expresso de assombro, foi uma brilhante e vistosa coroa de 
papelo forrado de papel dourado, que o tenente-coronel trazia na cabea. 

Camilo recuou um passo e cravou os olhos na insgnia imperial do tenente-coronel. J lhe no 
lembrava aquele acessrio indispensvel em ocasies semelhantes, e tendo vivido oito anos no meio 
de uma civilizao diversa, no imaginava que ainda existissem costumes que ele julgava 
enterrados. 

O tenente-coronel apertou a mo a todos os amigos e declarou que estava pronto a 
acompanh-los. 

 No faamos esperar o povo, disse ele. 
Imediatamente, desceram  rua. Houve no povo um movimento de curiosidade, quando viu 
aparecer  porta a opa encarnada de um dos irmos que haviam subido. Logo atrs apareceu outra 
opa, e no tardou que as restantes opas aparecessem tambm, flanqueando o vioso imperador. A 
coroa dourada, apenas o sol lhe bateu de chapa, entrou a despedir fascas quase inverossmeis. O 
tenente-coronel olhou a um lado e outro, fez algumas inclinaes leves de cabea a uma ou outra 
pessoa da multido, e foi ocupar o seu lugar de honra no cortejo. A msica rompeu logo uma 
marcha, que foi executada pelo tenente-coronel, a irmandade e os pastores, na direo da igreja. 

Apenas da igreja avistaram o cortejo, o sineiro que j estava  espreita, ps em obra as lies 
mais complicadas do seu ofcio, enquanto uma girndola, entremeada de alguns foguetes soltos, 
anunciava s nuvens do cu que o imperador do divino era chegado. Na igreja houve um rebulio 
geral apenas se anunciou que era chegado o imperador. Um mestre de cerimnias ativo e 
desempenhado ia abrindo alas, com grande dificuldade, porque o povo, ansioso por ver a figura do 
tenente-coronel, aglomerava-se desordenadamente desfazia a obra do mestre de cerimnias. Afinal 
aconteceu o que sempre acontece nessas ocasies; as alas foram-se abrindo por si mesmas, e ainda 
que com algum custo, o tenente-coronel atravessou a multido, precedido e acompanhado pela 
irmandade, at chegar ao trono que se levantava ao lado do altar-mor. Subiu com firmeza os 
degraus do trono, e sentou-se nele, to orgulhoso como se governasse dali todos os imprios juntos 
do mundo. 

Quando Camilo chegou  igreja, j a festa havia comeado. Achou um lugar sofrvel, ou antes 
inteiramente bom, porque ali podia dominar um grande grupo de senhoras, entre as quais descobriu 
a formosa Isabel. 

Camilo estava ansioso por falar outra vez com Isabel. O encontro na estrada e a singular 
perspiccia de que a moa dera prova nessa ocasio, no lhe haviam sado da cabea. A moa 
pareceu no dar por ele, mas Camilo era to versado em tratar com o belo sexo, que no lhe foi 
difcil perceber que ela o tinha visto e intencionalmente no voltava os olhos para o lado dele. Esta 
circunstncia, ligada aos incidentes do domingo anterior, fez-lhe nascer no esprito a seguinte 
pergunta: 

 Mas que tem ela contra mim? 
A festa prosseguiu sem novidade. Camilo no tirava os olhos de sua bela charada, nome que 
j lhe dava, mas a charada parecia refratria a todo o sentimento de curiosidade. Uma vez porm, 
quase no fim, encontraram-se os olhos de ambos. Pede a verdade que se diga que o rapaz 
surpreendeu a moa a olhar para ele. Cumprimentou-a; foi correspondido; nada mais. Acabada a 
festa foi a irmandade levar o tenente-coronel at a casa. No meio da lufa-lufa da sada, Camilo, que 
estava embebido a olhar para Isabel, ouviu uma voz desconhecida que lhe dizia no ouvido: 

 Veja o que faz! 
Camilo voltou-se e deu com um homem baixinho e magro, de olhos midos e vivos, pobre 
mas asseadamente trajado. Encararam-se alguns segundos sem dizer palavra. Camilo no conhecia 
aquela cara e no se atrevia a pedir explicao das palavras que ouvira, conquanto ardesse por saber 

o resto. 
 H um mistrio, continuou o desconhecido. Quer descobri-lo?
Houve algum tempo de silncio.
 O lugar no  prprio, disse Camilo; mas se tem alguma coisa que me dizer... 
 No; descubra o senhor mesmo. 

E dizendo isto desapareceu no meio do povo o homem baixinho e magro, de olhos vivos e 
midos. Camilo acotovelou umas dez ou doze pessoas, pisou uns quinze ou vinte calos, pediu 
outras tantas vezes perdo da sua imprudncia, at que se achou na rua sem ver nada que se 
parecesse com o desconhecido. 

 Um romance! disse ele; estou em pleno romance. 
Nisto saam da igreja Isabel, D. Gertrudes e o Dr. Matos. Camilo aproximou-se do grupo e 
cumprimentou-os. Matos deu brao a D. Gertrudes; Camilo ofereceu timidamente o seu a Isabel. A 
moa hesitou; mas no era possvel recusar. Passou o brao no do jovem mdico e o grupo dirigiuse para a casa onde o tenente-coronel j estava e mais algumas pessoas importantes da localidade. 
No meio do povo havia um homem que tambm se dirigia para a casa do coronel e que no tirava os 
olhos de Camilo e de Isabel. 

Esse homem mordia o lbio at fazer sangue.
Ser preciso dizer que era Leandro Soares?


CAPTULO V 

PAIXO 

A distncia da igreja  casa era pequena; e a conversa entre Isabel e Camilo no foi longa nem 
seguida. E todavia, leitor, se alguma simpatia te merece a princesa moscovita, deves sinceramente 
lastim-la. A aurora de um novo sentimento comeava a dourara as cumeadas do corao de 
Camilo; ao subir as escadas, confessava o filho do comendador de si para si, que a interessante 
patrcia tinha qualidade superiores s da bela princesa russa. Hora e meia depois, isto , quase no 
fim do jantar, o corao de Camilo confirmava plenamente esta descoberta do seu investigador 
esprito. 

A conversa, entretanto, no passou de coisas totalmente indiferentes; mas Isabel falava com 
tanta doura e graa, posto no alterasse nunca a sua habitual reserva; os olhos eram to bonitos de 
ver ao perto, e os cabelos tambm, e a boca igualmente, e as mos do mesmo modo, que o nosso 
ardente mancebo, s mudando de natureza, poderia resistir ao influxo de tantas graas juntas. 

O jantar corre sem novidade aprecivel. Reuniram-se  mesa do tenente-coronel todas as 
notabilidades do lugar: o vigrio, o juiz municipal, o negociante, o fazendeiro, reinando sempre de 
uma ponta a outra da mesa a maior cordialidade e harmonia. O imperador do divino, j ento 
restitudo ao seu vesturio comum fazia as honras da mesa com verdadeiro entusiasmo. A festa era 
objetivo da geral conversa, entremeada,  verdade, de reflexes polticas, em que todos estavam de 
acordo, porque eram do mesmo partido, homens e senhoras. 

O major Brs tinha por costume fazer um ou dois brindes longos e eloqentes em cada jantar 
de certa ordem a que assistisse. A facilidade com que ele se exprimia, no tina rival em toda a 
provncia. Alm disso, como era dotado de descomunal estatura, dominava de tal modo o auditrio, 
que o simples levantar-se era j meio triunfo. 

No podia o major Brs deixar inclume o jantar do tenente-coronel; ia-se entrar na 
sobremesa quando o eloqente major pediu licena para dizer algumas palavras singelas e toscas. 
Um murmrio equivalente aos no-apoiados das cmaras, acolheu esta declarao do orador, e o 
auditrio preparou o ouvido para receber as prolas que lhe iam cair da boca. 

 O ilustre auditrio que me escuta, disse ele, desculpar a minha ousadia; no vos fala o 
talento, senhores, fala-vos o corao. Meu brinde  curto; para celebrar as virtudes e a capacidade 
do ilustre tenente-coronel veiga no  preciso fazer um longo discurso. Seu nome diz tudo; a minha 
voz nada adiantaria... 
O auditrio revelou por sinais que aplaudia sem restries o primeiro membro desta ltima 
frase, e com restries o segundo; isto , cumprimentou o tenente-coronel e o major; e o orador que, 
para ser coerente com o que acabava de dizer, devia limitar-se a esvaziar o copo, prosseguiu da 
seguinte maneira: 

 O imenso acontecimento que acabamos de presenciar, senhores, creio que nunca se 
apagar da vossa memria. Muitas festas do esprito Santo tm havido nesta cidade e em outras; 

mas nunca o povo teve o jbilo de contemplar um esplendor, uma animao, um triunfo igual ao 
que nos proporcionou o nosso ilustre correligionrio e amigo, o tenente-coronel Veiga, honra da 
classe a que pertence, e a glria do partido a que se filiou... 

 E no qual pretendo morrer, completou o tenente-coronel. 
 Nem outra coisa era de esperar de V. Exa., disse o orador mudando de voz para dar a 
estas palavras um tom de parnteses. 
Apesar da declarao feita no princpio, de que era intil acrescentar nada aos mritos do 
tenente-coronel, o intrpido orador falou cerca de vinte e cinco minutos com grande mgoa do 
padre Maciel, que namorava de longe um fofo e trmulo pudim de po, e do juiz municipal que 
estava ansioso por ir fumar. A perorao desse memorvel discurso foi pouco mais ou menos assim: 

 Eu falaria, portanto, aos meus deveres de amigo, de correligionrio, de subordinado e de 
admirador, se no levantasse a voz nesta ocasio, e no vos dissesse em linguagem tosca, sim, 
(sinais de desaprovao), mas sincera, os sentimentos que me tumultuam dentro do peito, o 
entusiasmo de que me sinto possudo, quando contemplo o venerando e ilustre tenente-coronel 
Veiga, e se vos no convidasse a beber comigo  sade de S. Exa. 
O auditrio acompanhou com entusiasmo o brinde do major, ao qual respondeu o tenentecoronel com estas poucas, mas sentidas palavras: 

 Os elogios que me acha de fazer o distinto major Brs, so verdadeiros favores de uma 
alma grande e generosa; no os mereo, senhores; devolvo-os intatos ao ilustre orador que me 
precedeu. 
No meio da festa e da alegria que reinava, ningum reparou nas atenes que Camilo prestava 
 bela filha do Dr. Matos. Ningum, digo mal; Leandro Soares, que fora convidado ao jantar, e 
assistira a ele, no tirava os olhos do elegante rival e da sua formosa e esquiva dama. 

H de parecer milagre ao leitor a indiferena e at o ar alegre com que Soares via os ataques 
do adversrio. No  milagre; Soares tambm interrogava o olhar de Isabel e lia nele a indiferena; 
talvez o desdm, com que tratava o filho do comendador. 

 Nem eu, nem ele, dizia consigo o pretendente. 
Camilo estava apaixonado; no dia seguinte amanheceu pior; cada dia que passava aumentava 
a chama que o consumia. Paris e a princesa, tudo havia desaparecido do corao e da memria do 
rapaz. Um s ente, um lugar nico mereciam agora as suas atenes: Isabel e Gois. 

A esquivana e os desdns da moa no contriburam pouco para esta transformao. Fazendo 
de si prprio melhor idia que o rival, Camilo dizia consigo: 

 Se ela no me d ateno, muito menos deve importar-se com o filho do Soares. Mas por 
que razo se mostra comigo to esquiva? Que motivo h para que eu seja derrotado como qualquer 
pretendente vulgar. 
Nessas ocasies lembrava-se do desconhecido que lhe falara na igreja e das palavras que lhe 
dissera. 

 Algum mistrio haver, dizia ele; mas como descobri-lo? 
Indagou das pessoas da cidade quem era o sujeito baixo, de olhos midos e vivis. Ningum 
lho soube dizer. Parecia incrvel que no chegasse a descobrir naquelas paragens um homem que 
naturalmente algum devia conhecer; recobrou de esforos; ningum sabia quem era o misterioso 
sujeito. 

Entretanto Camilo freqentava a fazenda do Dr. Matos e ali ia jantar algumas vezes. Era 
difcil falar a Isabel com a liberdade que permitem mais adiantados costumes; fazia entretanto o que 
lhe podia para comunicar  bela moa os seus sentimentos. Isabel parecia cada vez mais estranha s 
comunicaes do rapaz. Suas maneiras no eram positivamente desdenhosas, mas frias; dissera-se 
que ali dentro morava um corao de neve. 

Ao amor desprezado, veio juntar-se o orgulho ofendido, o despeito e a vergonha, e tudo isto, 
junto a uma epidemia que ento reinava na comarca, deu com o nosso Camilo na cama, onde por 
agora deixaremos, entregue aos mdicos seus colegas. 


CAPTULO VI 

REVELAO 

No h muitos mistrios para um autor que sabe investigar todos os recantos do corao. 
Enquanto o povo de Santa Luzia faz mil conjeturas a respeito da causa verdadeira da iseno que 
at agora tem mostrado a formosa Isabel, estou habilitado para dizer ao leitor impaciente que ela 
ama. 

 E a quem ama? pergunta vivamente o leitor. 
Ama... uma parasita. Uma parasita?  verdade, uma parasita. Deve ser ento uma flor muito 
linda, -um milagre de frescura e de aroma. No, senhor,  uma parasita muito feia, um cadver de 
flor, seco, mirrado, uma flor que devia ter sido lindssima h muito tempo, no p, mas que hoje na 
cestinha em que ela a traz, nenhum sentimento inspira, a no ser de curiosidade. Sim, porque  
realmente curioso que uma moa de vinte anos, em toda a fora das paixes, parea indiferente aos 
homens que a cercam, e concentre todos os seus afetos nos restos descorados e secos de uma flor. 

Ah! mas aquela flor foi colhida em circunstncias especiais. Dera-se o caso alguns anos antes. 
Um moo da localidade gostava ento muito de Isabel, porque era uma criana engraada, e 
costumava cham-la sua mulher, gracejo inocente que o tempo no sancionou. Isabel tambm 
gostava do rapaz, a ponto de fazer nascer no esprito do pai da moa a seguinte idia: 

 Se daqui a alguns anos as coisas no mudarem por parte dela, e se ele vier a gostar 
seriamente da pequena, creio que os posso casar. 
Isabel ignorava completamente esta idia do pai; mas continuava a gostar do moo, o qual 
continuava a ach-la uma criana interessantssima. 
Um dia viu Isabel uma linda parasita azul, entre os galhos de uma rvore. 

 Que bonita flor! Disse ela. 
 Aposto que voc a quer? 
 Queria sim... disse a menina que, mesmo sem aprender, conhecia j esse falar oblquo e 
disfarado. 
O moo despiu o palet com a sem-cerimnia de quem trata com uma criana e trepou pela 
rvore acima. Isabel ficou em baixo ofegante e ansiosa pelo resultado. No tardou que o 
complacente moo deitasse a mo  flor e delicadamente a colhesse. 

 Apanhe disse ele de cima. 
Isabel aproximou-se da rvore e recolheu a flor no regao. Contente por ter satisfeito o desejo 
da menina, tratou o rapaz de descer, mas to desastrosamente o fez, que no fim de dois minutos 
jazia no cho aos ps de Isabel. A menina deu um grito de angstia e pediu socorro; o rapaz 
procurou tranquiliz-la dizendo que nada era, e tentando levantar-se alegremente. Levantou-se com 
efeito, com a camisa salpicada de sangue; tinha ferido a cabea. 

A ferida foi declarada leve; dentro de poucos dias estava o valente moo completamente 
restabelecido. 

A impresso que Isabel recebeu naquela ocasio foi profunda. Gostava at ento do rapaz; da 
em diante passou a ador-lo. A flor que ele lhe colhera veio naturalmente a secar; Isabel guardou-a 
como se fora uma relquia; beijava-a todos os dias; e de certo tempo em diante at chorava sobre 
ela. Uma espcie de culto supersticioso prendia o corao da moa quela mirrada parasita. 

No era ela porm to mau corao que no ficasse vivamente impressionada quando soube 
da doena de Camilo. Fez indagar com assiduidade do estado do moo, e cinco dias depois foi com 

o pai visit-lo  fazenda do comendador. 
A simples visita da moa, se no curou o doente, deu em resultado consol-lo e anim-lo; 
viaram-lhe algumas esperanas, que j estavam mais secas e mirradas que a parasita cuja histria 
acima marrei. 

 Quem sabe se me no amar agora? pensou ele. 
Apenas ficou restabelecido foi seu primeiro cuidado o ir  fazenda do Dr. Matos; o 
comendador quis acompanh-lo. No o acharam em casa; estavam apenas a irm e a filha. A irm 
era uma pobre velha, que alm desse achaque, tinha mais dois: era surda e gostava de poltica. A 


ocasio era boa; enquanto a tia de Isabel confiscava a pessoa e a ateno do comendador, Camilo 
teve tempo de dar um golpe decisivo, dirigindo  moa estas palavras: 

 Agradeo-lhe a bondade que mostrou a meu respeito durante a minha molstia. Essa 
mesma bondade anima-se a pedir-lhe uma coisa mais. 
Isabel franziu a testa. 

 Reviveu-me uma esperana h dias, continuou Camilo, esperana que j estava morta. 
Ser iluso minha? Uma sua palavra, um gesto seu resolver esta dvida. 
Isabel ergueu os ombros. 

 No compreendo, disse ela. 
 Compreende, disse Camilo em tom amargo. Mas eu serei mais franco, se o existe. Amoa; disse-lho mil vezes; no fui atendido. Agora porm... 
Camilo concluiria de boa vontade este pequeno discurso, se tivesse diante de si a pessoas que 
ele desejava o ouvisse. Isabel, porm, no lhe deu tempo de chegar ao fim. Sem dizer palavra, sem 
fazer um gesto, atravessou a extensa varanda e foi sentar-se na outra extremidade onde a velha tia 
punha  prova os excelentes pulmes do comendador. 

O desapontamento de Camilo estava alm de toda a descrio. Pretextando um calor que no 
existia saiu para tomar ar, e ora vagaroso, ora apressado triunfava nele a irritao ou o desnimo, o 
msero pretendente deixou-se ir sem destino. Construiu mil planos de vingana, ideou mil maneiras 
de ir lanar-se aos ps da moa, rememorou todos os fatos que se haviam dado com ela, e ao cabo 
de uma longa hora chegou  triste concluso de que tudo estava perdido. Nesse momento de acordo 
de si: estava ao p de um riacho que atravessava a fazenda do Dr. Matos. O lugar era agreste e 
singularmente feito para a situao em que ele se achava. A uns duzentos passos viu uma cabana, 
onde pareceu que algum entoava uma cantiga do serto. 

Importuna coisa  a felicidade alheia quando somos vtima de algum infortnio! Camilo 
sentiu-se ainda mais irritado, e ingenuamente perguntou a si mesmo se algum podia ser feliz 
estando ele com o corao a sangrar de desespero. Da a nada aparecia  porta da cabana um 
homem e saa na direo do riacho. Camilo estremeceu; pareceu-lhe reconhecer o misterioso que 
lhe falara no dia do Esprito Santo. Era a mesma estatura e o mesmo ar; aproximou-se rapidamente 
e parou a cinco passos de distncia. O homem voltou o rosto: era ele! 

Camilo correu ao desconhecido. 

 Enfim! disse ele.
O desconhecido sorriu-se complacentemente e apertou a mo que Camilo lhe oferecia.
 Quer descansar? perguntou-lhe. 
 No, respondeu o mdico. Aqui mesmo, ou mais longe se lhe apraz, mas desde j, por 
favor, desejo que me explique as palavras que me disse outro dia na igreja. 
Novo sorriso do desconhecido. 

 Ento? disse Camilo vendo que o homem no respondia. 
 Antes de mais nada, diga-me: gosta deveras da moa? 
 Oh! muito! 
 Jura que a faria feliz? 
 Juro! 
 Ento oua. O que vou contar a V.S.  verdade, porque o soube por minha mulher que foi 
mucama de D. Isabel.  aquela que ali est. 
Camilo olhou para a porta da cabana e viu uma mulatinha alta e elegante, que olhava para ele 
com curiosidade. 

 Agora, continuou o desconhecido, afastemo-nos um pouco; para que ela nos no oua, 
porque eu no desejo venha a saber-se de quem V.S. ouviu esta histria. 
 Afastaram-se com efeito costeando o riacho. O desconhecido narrou ento a Camilo toda 
a histria da parasita, e o culto que at ento a moa votava  flor seca. Um leitor menos sagaz 
imagina que o namorado ouviu esta narrao triste e abatido. Mas o leitor que souber ler adivinha 
logo que a confidncia do desconhecido despertou na alma de Camilo os mais incrveis sobressaltos 
de alegria. 

 Aqui est o que h, disse o desconhecido ao concluir, creio que V.S. com isto pode saber 
em que terreno pisa. 
 Oh! sim! sim! disse Camilo. Sou amado! sou amado! 
Sabedor daquela novidade ardia o mdico por voltar  casa, donde sara havia tanto tempo. 
Meteu a mo na algibeira, abriu a carteira e torou uma nota de vinte mil ris. 

 O servio que me acaba de prestar  imenso, disse ele; no tem preo. Isto porm  
apenas uma lembrana... 
Dizendo estas palavras, estendeu-lhe a nota. O desconhecido riu-se desdenhosamente sem 
responder palavra. Depois, estendeu a mo  nota que Camilo lhe oferecia, e, com grande pasmo 
deste atirou-a ao riacho. O fio dgua que ia murmurando e saltando por cima das pedras, levou 
consigo o bilhete, de envolta com uma folha que o vento lhe levara tambm. 

 Deste modo, disse o desconhecido, nem o senhor fica devendo um obsquio, nem eu 
recebo a paga dele. No pense que tive teno de servir a V.S.; no. Meu desejo  fazer feliz a filha 
do meu benfeitor. Sabia que ela gostava de um moo, e que esse moo era capaz de a fazer feliz; 
abri caminho para que ele chegue at onde ela est. Isto no se paga; agradece-se apenas. 
Acabando de dizer estas palavras, o desconhecido voltou as costas ao mdico, e dirigiu-se 
para a cabana. Camilo acompanhou com os olhos naquele homem rstico. Pouco tempo depois 
estava em casa de Isabel, onde j era esperado com alguma ansiedade. Isabel viu-o entrar alegre e 
radiante. 

 Sei tudo, disse-lhe pouco antes de sair.
A moa olhou espantada antes de sair.
 Tudo? repetiu ela. 
 Sei que me ama, sei que esse amor nasceu h longos anos, quando era criana, e que 
ainda hoje... 
Foi interrompido pelo comendador que se aproximava. Isabel estava plida e confusa; estimou 
a interrupo, porque no saberia que responder. 
No dia seguinte escreveu-lhe Camilo uma extensa carta apaixonada, invocando o amor que 
ela conservara no corao, e pedindo-lhe que o fizesse feliz. Dois dias esperou Camilo a resposta da 
moa. Veio no terceiro dia. Era breve e seca. Confessava que o amara durante aquele longo tempo, 
e jurara no amar nunca a outro. 

Apenas isso, conclua Isabel. Quanto a ser sua esposa, nunca. Eu quisera entregar a minha 
vida a quem tivesse um amor igual ao meu. O seu amor  de ontem; o meu  de nove anos; a 
diferena de idade  grande demais; no pode ser bom consrcio. Esquea-me e adeus. 

Dizer que esta carta no fez mais do que aumentar o amor de Camilo,  escrever no papel 
aquilo que o leitor j adivinhou. O corao de Camilo s esperava uma confisso escrita da moa 
para transpor o limite que o separava da loucura. A carta transtornou-o completamente. 

CAPTULO VII 

PRECIPITAM-SE OS ACONTECIMENTOS 

O comendador no perdera a idia de meter o filho na poltica. Justamente nesse ano havia 
eleio; o comendador escreveu s principais influncias da provncia para que o rapaz entrasse na 
respectiva assemblia. 

Camilo teve notcia desta premeditao do pai; limitou-se a erguer os ombros, resolvido a no 
aceitar nenhuma que no fosse a mo de Isabel. Em vo o pai, o padre Maciel, o tenente-coronel lhe 
mostravam um futuro esplndido e todo semeado de altas posies. Uma s posio o contentava: 
casar com a moa. 

No era fcil, decerto: a resoluo de Isabel parecia inabalvel. 

 Ama-me, porm, dizia o rapaz consigo;  meio caminho andado. 
E como o seu amor era mais recente que o dela, compreendeu Camilo que o meio de ganhar a 
diferena de idade, era mostrar que o tinha mais violento e capaz de maiores sacrifcios. 


No poupou manifestaes de toda a sorte. Chuvas e temporais arrostou para ir v-la todos os 
dias; fez-se escravo de seus menores desejos. Se Isabel tivesse a curiosidade infantil de ver na mo 
a estrela dalva,  muito provvel que ele achasse meio de lha trazer. 

Ao mesmo tempo, cessara de a importunar com epstolas ou palavras amorosas. A ltima que 
disse foi: 

 Esperarei!
Nesta esperana andou ele muitas semanas, sem que a sua situao melhorasse sensivelmente.
Alguma leitora menos exigente h de achar singular a resoluo de Isabel, ainda depois de
saber que era amada. Tambm eu penso assim; mas no quero alterar o carter da herona, porque 
ela era tal qual a apresento nestas pginas. Entendia que ser amada casualmente, pela nica razo de 
ter o moo voltado de Paris, enquanto ela gastara largos anos a lembrar-se dele e a viver unicamente 
da recordao, entendia, digo eu, que isto a humilhava, e porque era imensamente orgulhosa, 
resolvera no casar com ele nem com outro. Ser absurdo; mas era assim. 

Fatigado de assediar inutilmente o corao da moa, e por outro lado, convencido de que era 
necessrio mostrar uma dessas paixes invencveis a ver se a convencia e lhe quebrava a resoluo, 
planeou Camilo um grande golpe. 

Um dia de manh desapareceu da fazenda. A princpio ningum se abalou com a ausncia 
porque ele costumava dar longos passeios, quando porventura acordava mais cedo. A coisa porm 
comeou a assustar  proporo que o tempo ia passando. Saram emissrios para todas as partes, e 
voltaram sem dar novas do rapaz. 

O pai estava aterrado; a notcia do acontecimento correu por toda a parte em dez lguas ao 
redor. No fim de cinco dias de infrutferas pesquisas soube-se que um moo, com todos os sinais de 
Camilo, fora visto a meia lgua da cidade, a cavalo. Ia s e triste. Um tropeiro asseverou depois ter 
visto um moo junto de uma ribanceira, parecendo sondar com o olhar que probabilidade de morte 
lhe traria uma queda. 

O comendador entrou a oferecer grossas quantias a quem lhe desse notcia segura do filho. 
Todos os seus amigos despacharam gente a investigar as matas e os campos, e nesta intil labutao 
correu uma semana. 

Ser necessrio dizer a dor que sofreu a formosa Isabel quando lhe foram dar notcia do 
desaparecimento de Camilo? A primeira impresso foi aparentemente nenhuma; o rosto no revelou 
a tempestade que imediatamente rebentara no corao. Dez minutos depois da tempestade subiu aos 
olhos e transbordou num verdadeiro mar de lgrimas. 

Foi ento que o pai teve conhecimento da paixo to longo tempo incubada. Ao ver aquela 
exploso no duvidou que o amor da filha pudesse vir a ser-lhe funesto. Sua primeira idia foi que o 
rapaz desaparecera para fugir a um enlace indispensvel. Isabel tranqilizou-o dizendo que, pelo 
contrrio, era ela quem se negara a aceitar o amor de Camilo. 

 Fui eu que o matei! exclamava a pobre moa. 
O bom velho no compreendeu muito como  que uma moa apaixonada por um mancebo, e 
um mancebo apaixonado por uma moa, em vez de caminharem para o casamento, tratassem de se 
separar um do outro. Lembrou-se que o seu procedimento fora justamente o contrrio, logo que 
travou o primeiro namoro. 

No fim de uma semana foi o Dr. Matos procurado na sua fazenda pelo nosso j conhecido 
morador da cabana, que ali chegou ofegante e alegre. 

 Est salvo! disse ele. 
 Salvo! exclamou o pai e a filha. 
  verdade, disse Miguel (era o nome do homem); fui encontr-lo no fundo de uma 
ribanceira, quase sem vida, ontem de tarde. 
 E por que no vieste dizer-nos?... perguntou o velho. 
 Porque era preciso cuidar dele em primeiro lugar. Quando voltou a si quis ir outra vez 
tentar contra os seus dias; eu e minha mulher impedimo-lo de fazer tal. Est ainda um pouco fraco; 
por isso no veio comigo. 

O rosto de Isabel estava radiante. Algumas lgrimas, poucas e silenciosas, ainda lhe correram 
dos olhos; mas eram j de alegria e no de mgoa. 

Miguel saiu com a promessa de que o velho iria l buscar o filho do comendador. 

 Agora, Isabel, disse o pai, apenas ficou s com ela, que pretendes fazer? 
 O que me ordenar, meu pai! 
 Eu s ordenarei o que te disser o corao. Que te diz ele? 
 Diz... 
 O que? 
 Que sim. 
  o que devia ter dito h muito tempo, porque...
O velho estacou.
 Mas se a causa deste suicdio for outra? pensou ele. Indagarei tudo. 
Comunicou a notcia ao comendador, no tardou que este se apresentasse em casa do Dr. 
Matos, onde pouco depois chegou Camilo. O msero rapaz trazia escrita no rosto a dor de haver 
escapado  morte trgica que procurara; pelo menos, assim o disse muitas vezes em caminho, ao pai 
de Isabel. 

 Mas a causa dessa resoluo? perguntou-lhe o doutor. 
 A causa... balbuciou Camilo que espreitava a pergunta; no ouso confess-la...
  vergonhosa? perguntou o velho com um sorriso benvolo.
 Oh! no!...
 Mas que causa ?
 Perdoa-me, se eu lha disser?
 Por que no?
 No, no ouso... disse resolutamente Camilo.
  intil, porque eu j sei.
 Ah!
 E perdo a causa, mas no lhe perdo a resoluo; o senhor fez uma coisa de criana.
 Mas ela despreza-me!
 No... ama-o!
Camilo fez aqui um gesto de surpresa perfeitamente imitado, e acompanhou o velho at a
casa, onde encontrou o pai, que no sabia se devia mostrar-se severo ou satisfeito. 
Camilo compreendeu logo ao entrar o efeito que o seu desastre causara no corao de Isabel. 

 Ora pois! disse o pai da moa. Agora que ressuscitamos  preciso prend-lo  vida com 
uma cadeia forte. 
E sem esperar a formalidade do costume nem atender s etiquetas normais da sociedade, o pai 
de Isabel deu ao comendador a novidade de que era indispensvel casar os filhos. O comendador 
ainda no voltara a si da surpresa de ter encontrado o filho, quando ouviu esta notcia; e se toda a 
tribo dos Xavantes viesse cair em cima dele armada de arco e flecha no sentiria espanto maior. 
Olhou alternadamente para todos os circunstantes como se lhes pedisse a razo de um fato alis mui 
natural. Afinal explicaram-lhe a paixo de Camilo e Isabel, causa nica do suicdio meio executado 
pelo filho. O comendador aprovou a escolha do rapaz e levou a sua galanteria a dizer que no caso 
dele teria feito o mesmo, se no contasse com a vontade da moa. 

 Serei enfim digno do seu amor? perguntou o mdico a Isabel quando se achou s com ela.
 Oh! sim!... disse ela. Se morresse, eu morreria tambm!
Camilo apressou-se a dizer que a Providncia velara por ele; e no soube nunca o que  que
ele chamava Providncia. 

No tardou que o desenlace do episdio trgico fosse publicado na cidade e seus arredores. 

Apenas Leandro Soares soube do casamento projetado entre Isabel e Camilo ficou 

literalmente fora de si. Mil projetos lhe acudiram  mente, cada qual mais sanguinrio; em sua 
opinio eram dois prfidos que o haviam trado; cumpria tirar uma solene desforra de ambos. 
Nenhum dspota sonhou nunca mais terrveis suplcios do que os que Leandro Soares 
engendrou na sua escalada imaginao. Dois dias e duas noites passou o pobre namorado em 


conjeturas estreis. No terceiro dia resolveu ir simplesmente procurar o venturoso rival, lanar-lhe 

em rosto a sua vilania e assassin-lo depois. 

Muniu-se de uma faca e partiu. 

Saa da fazenda o feliz noivo, descuidado da sorte que o esperava. Sua imaginao ideava 
uma vida cheia de bem-aventurana e deleites celestes; a imagem da moa dava a tudo o que o 
rodeava uma cor potica. Ia todo engolfado nestes devaneios quando viu em frente de si o preterido 
rival. Esquecera-se dele no meio da sua felicidade; compreendeu o perigo e preparou-se para ele. 

Leandro Soares, fiel ao programa que se havia imposto, desfiou um rosrio de improprios 
que o mdico ouviu calado. Quando Soares acabou e ia dar  prtica o ponto final sanguinolento, 
Camilo respondeu: 

 Atendi a tudo o que me disse; peo-lhe agora que me oua.  verdade que vou casar com 
essa moa; mas tambm  verdade que ela no o ama. Qual  o nosso crime neste caso? Ora, ao 
passo que o senhor nutre a meu respeito sentimentos de dio, eu pensava na sua felicidade. 
 Ah! disse Soares com ironia. 
 PE verdade. Disse comigo que um homem das suas aptides no devia estar eternamente 
dedicado a servir de degrau aos outros; e ento, como meu pai quer  fora fazer-me deputado 
provincial, disse-lhe que aceitava o lugar para o dar ao senhor. Meu pai concordou; mas eu tive de 
vencer resistncias polticas e ainda agora trato de quebrar algumas. Um homem que assim procede 
creio que lhe merece alguma estima, -pelo menos no lhe merece tanto dio. 
No creio que a lngua humana possua palavras assaz enrgicas para pintar a indignao que 
se manifestou no rosto de Leandro Soares. O sangue subiu-lhe todo s faces, enquanto os olhos 
pareciam despedir chispas de fogo. Os lbios trmulos como que ensaiavam baixinho uma 
impresso eloqente contra o feliz rival. Enfim, o pretendente infeliz rompeu nestes termos: 

 A ao que o senhor praticou era j bastante infame; no precisava juntar-lhe o escrnio... 
 O escrnio! interrompeu Camilo. 
 Que outro nome darei eu ao que me acaba de dizer? Grande estima, na verdade,  a sua 
de me roubar a maior, a nica felicidade, que eu podia ter, vem oferecer-me uma compensao 
poltica! 
Camilo conseguiu explicar que no lhe oferecia nenhuma compensao; pensara naquilo por 
conhecer as tendncias polticas de Soares e julgar que deste modo lhe seria agradvel. 

 Ao mesmo tempo, concluiu gravemente o noivo, fui levado pela idia de prestar um 
servio  provncia. Creia que nenhum caso, ainda que me devesse custar a vida, proporia coisa 
desvantajosa  provncia e ao pas. Eu cuidava servir a ambos apresentando a sua candidatura, e 
pode crer que a minha opinio ser a de todos. 
 Mas o senhor falou de resistncias... disse Soares cravando no adversrio um olhar 
inquisitorial. 
 Resistncias, no por oposio pessoal, mas por convenincias polticas, explicou 
Camilo. Que vale isso? Tudo se desfaz com a razo e os verdadeiros princpios do partido que tem a 
honra de o possuir entre seus membros. 
Leandro Soares no tirava os olhos de Camilo; nos lbios pairava-lhe agora um sorriso irnico 
e cheio de ameaas. Contemplou-o ainda alguns instantes sem dizer palavra, at que de novo 
rompeu o silncio. 

 Que faria o senhor no meu caso? perguntou ele dando ao seu irnico sorriso um ar 
verdadeiramente lgubre. 
 Eu recusava, respondeu afoitamente Camilo. 
 Ah! 
 Sim, recusava, porque no tenho vocao poltica. No acontece com o senhor, que a tem, 
e  por assim dizer o apoio do partido em toda a comarca. 
 Tenho essa convico, disse Soares com orgulho. 
 No  o nico: todos lhe fazem justia. 
Soares entrou a passear de uma lado para outro. Esvoaavam-lhe na mente terrveis 
inspiraes, ou d humanidade, reclamava alguma moderao no gnero de morte que daria ao rival? 


Decorreram cinco minutos. Ao cabo deles, Soares parou em frente de Camilo e ex-abrupto lhe 
perguntou: 

 Jura-me uma coisa? 
 O qu? 
 Que a far feliz? 
 J jurei a mim mesmo;  o meu mais doce dever. 
 Seria meu esse dever se a sorte se no houvesse pronunciado contra mim; no importa; 
estou disposto a tudo. 
 Creia que eu sei avaliar o seu grande corao, disse Camilo, estendendo-lhe a mo. 
 Talvez. O que no sabe, o que no conhece,  a tempestade que fica na alma, a dor 
imensa que me h de acompanhar at  morte. Amores destes vo at  sepultura. 
Parou sacudiu a cabea, como para expelir uma idia sinistra. 

 Que pensamento  o seu? perguntou Camilo vendo o gesto de Soares. 
 Descanse, respondeu ele; no tenho projeto nenhum. Resignar-me-ei  sorte; e se aceito 
essa candidatura poltica que me oferece  unicamente para afogar nela a dor que me abafa o 
corao. 
No sei se este remdio eleitoral servir para todos os casos de doena amorosa. No corao 
de Soares produziu uma crise salutar, que se resolveu em favor do doente. 

Os leitores adivinham bem que Camilo nada havia dito em favor de Soares; mas empenhou-se 
logo nesse sentido, e o pai com ele, e afinal conseguiu-se que Leandro Soares fosse includo numa 
chapa e apresentado aos eleitores na prxima campanha. Os adversrios do rapaz, sabedores das 
circunstncias em que lhe foi oferecida a candidatura, no deixaram de dizer em todos os tons, que 
ele vendera o direito de primogenitura por um prato de lentilhas. 

Havia j um ano que o filho do comendador estava casado, quando apareceu na sua fazenda 
um viajante francs. Levava cartas de recomendao de um dos seus professores de paris. Camilo 
recebeu-o alegremente e pediu-lhe notcias da Frana, que ele ainda amava, dizia, como a sua ptria 
intelectual. O viajante disse-lhe muitas coisas, e sacou por fim da mala um mao de jornais. 

Era o Fgaro. 

O Fgaro! exclamou Camilo, laando-se aos jornais. 
Eram atrasados mas eram parisienses. Lembravam-lhe a vida que ele tivera durante longos 
anos, e posto nenhum desejo sentisse de trocar por ela a vida atual, havia sempre uma natural 
curiosidade em despertar recordaes de outro tempo. 

No quarto ou quinto nmero que abriu deparou-se-lhe uma notcia que ele leu com espanto. 

Dizia assim: 

Uma clebre Leontina Caveau, que se dizia viva de um tal prncipe Alexis, sdito do czar, 
foi ontem recolhida  priso. A bela dama (era bela!) no contente de iludir alguns moos incautos, 
alapardou-se com todas as jias de uma sua vizinha, Mlle. B... A roubada queixou-se a tempo de 
impedir a fuga da pretendida princesa. 

Camilo acabava de ler pela quarta vez esta notcia, quando Isabel entrou na sala. 

 Ests com saudades de Paris? perguntou ela vendo-o to atento a ler o jornal francs. 
 No disse o marido, passando-lhe o brao  roda da cintura; estava com saudades de ti. 
Jornal das Famlias, 1872. 


